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  • Foto do escritorEdson Almeida

Amputação mais antiga conhecida, realizada em Bornéu há mais de 31.000 anos


Um incrível achado fóssil torna um fato claro; 31.000 anos atrás, um jovem caçador-coletor em Bornéu teve sua perna esquerda amputada cirurgicamente, e sobreviveu.

Arqueólogos que trabalham em uma parte remota do Bornéu indonésio descobriram o que vem ser o exemplo mais antigo conhecido de uma amputação bem-sucedida, antecedendo a segunda cirurgia mais antiga desse tipo em incríveis 24.000 anos. Uma equipe de pesquisadores indonésios e australianos descreveu a descoberta na metade de 2021, na Nature.

O esqueleto nos aponta que a perna esquerda de um jovem foi habilmente cortada e, apesar dos riscos mortais de perda de sangue e infecção, foi curada com sucesso. Os ossos da perna mostram crescimento, provando que o paciente, embora não muito móvel, viveu por anos após a amputação, provavelmente graças ao extenso cuidado da comunidade durante a convalescença e além.

Os cientistas não têm certeza se o paciente era homem ou mulher, mas a estatura indica que um homem é o mais provável. A amputação sugere que, pelo menos alguns coletores do Sudeste Asiático desenvolveram conhecimentos e técnicas médicas significativas muito antes da Revolução Neolítica, cerca de 12.000 anos atrás (quando outros exemplos começaram a aparecer nos registros arqueológicos).

O esqueleto mostra onde a perna esquerda foi amputada, na tíbia e na fíbula.

O esqueleto provavelmente pertenceu a um macho de Homo sapiens de 19 ou 20 anos, e foi encontrado em uma caverna durante as escavações de 2020 em Liang Tebo. A caverna fica na região remota de Sangkulirang-Mangkalihat, no leste de Kalimantan, uma paisagem acidentada e visitada de penhascos de calcário e floresta acessível apenas por barco.

Localização da caverna onde o esqueleto foi encontrado.

Restos de humanos primitivos são raros na região, por isso, os pesquisadores sugerem que este pode ser o mais antigo esqueleto conhecido de um humano "moderno" já encontrado na região. Durante a escavação, a descoberta assumiu um novo nível de intriga quando a equipe descobriu que uma perna do esqueleto estava totalmente ausente.

O membro não havia sido quebrado ou esmagado, mas removido de forma limpa. Os arqueólogos também identificaram um crescimento ósseo incomum nos fragmentos remanescentes da tíbia e da fíbula, supercrescimento esse que corresponde ao supercrescimento observado em casos clínicos modernos de amputações.

Continuando as pesquisas, foi comprovado que posteriormente o osso também desenvolveu atrofia, indicando que a parte do membro que permaneceu era um toco com uso limitado. Investigações sobre essa remodelação da estrutura óssea mostraram terem se passado cerca de seis a nove anos entre o início e o termino dessas mudanças. “Isso confirma que a cirurgia não foi fatal, não infectou e provavelmente ocorreu no final da infância”, diz Tim Maloney, especialista em arqueologia de Bornéu na Griffith University, na Austrália, e coautor do estudo.

Para realizar uma operação bem-sucedida, os cirurgiões pré-históricos teriam que ter conhecimento de anatomia. Eles cortaram não apenas ossos, mas músculos, veias e nervos de tal forma que o paciente não sangrou até a morte ou entrou em estado de choque fatal. Seus bisturis provavelmente eram as bordas líticas lascadas de uma pedra chamada Chert, encontrada comumente na região.

Posteriormente, os cirurgiões podem ter empregado um torniquete ou cauterização, porém, nenhum procedimentos deixaria evidências claras no esqueleto e, portanto, permanecem apenas como possibilidades. O que com certeza é certo, é que o paciente teve um nível considerável de cuidados pós-operatórios.

“É altamente improvável que esse indivíduo pudesse ter sobrevivido ao procedimento sem cuidados de enfermagem intensivos, incluindo perda de sangue e controle de choque e limpeza regular de feridas”, observa Maloney. Ele acredita que a operação bem-sucedida implica que a comunidade também tinha algum conhecimento sobre o manejo antisséptico e antimicrobiano para prevenir infecções fatais. Ele completa:

“Dado que essas pessoas viviam em uma área dos trópicos da Terra, lar de algumas das maiores biodiversidades de plantas, muitas com propriedades medicinais conhecidas, há um forte argumento de que a adaptação a esse ambiente de floresta tropical pode ter estimulado o desenvolvimento de conhecimentos médicos avançados, incluindo plantas processadas para tratamentos”.

Quaisquer que sejam os métodos empregados, eles claramente funcionaram, produzindo uma amputação bem curada, sem evidências esqueléticas de complicações ou infecções. Durante os anos em que o paciente viveu e cresceu como um amputado, ele provavelmente recebeu assistência contínua da comunidade, enquanto vivia um estilo de vida móvel neste terreno montanhoso de floresta tropical.

Eles realmente tomaram uma decisão consciente de cuidar dessa pessoa”, diz Roberts. “Parece-me que durante a vida desta pessoa, e mesmo na sua morte, como podemos constatar pelo contexto funerário, foi muito bem cuidada.

A impressão de um artista de Tebo1. O indivíduo teve sua perna esquerda amputada na infância e sobreviveu até o início da idade adulta. Algumas das mais antigas pinturas figurativas conhecidas do mundo foram encontradas nesta região de Bornéu. Jose Garcia (Garciaartist) e Griffith University

A evidência de amputações pré-históricas, ou cirurgias de qualquer tipo, é relativamente escassa, mas alguns exemplos intrigantes de procedimentos médicos sérios foram encontrados.

Algumas múmias egípcias são amputadas, incluindo uma com uma incrível prótese de dedo do pé de 3.000 anos. Crânios de um cemitério ucraniano mostram que a trepanação, perfurando um buraco no crânio humano, foi praticada há mais de 9.000 anos.

A prática também ocorreu em todo o mundo, desde a Grécia Antiga até o Império Inca. Há 5.300 anos, humanos no norte da Espanha realizavam cirurgias de ouvido, cortando o crânio de um paciente para aliviar a dor.

A evidência de amputações pré-históricas, ou cirurgias de qualquer tipo, é relativamente escassa, mas alguns exemplos intrigantes de procedimentos médicos sérios foram encontrados. Algumas múmias egípcias são amputadas, incluindo uma com uma incrível prótese de dedo do pé de 3.000 anos.

Crânios de um cemitério ucraniano mostram que a trepanação, perfurando um buraco no crânio humano, foi praticada há mais de 9.000 anos. A prática também ocorreu em todo o mundo, desde a Grécia Antiga até o Império Inca. Há 5.300 anos, humanos no norte da Espanha realizavam cirurgias de ouvido, cortando o crânio de um paciente para aliviar a dor.

Anteriormente, o exemplo mais antigo de cirurgia de amputação bem-sucedida era um encontrado na França, onde algum cirurgião pré-histórico cortou deliberadamente e cuidadosamente o antebraço esquerdo de um idoso há cerca de 7.000 anos. O uso de técnicas cirúrgicas e médicas avançadas, como os exemplos acima, geralmente está ligado ao surgimento da agricultura, há cerca de 12.000 anos, quando comunidades e culturas estabelecidas começaram a se desenvolver.

Mas a vida em Bornéu era totalmente diferente. O emprego de tal habilidade médica lá, entre caçadores-coletores que estavam frequentemente em movimento, mais de 24.000 anos antes do segundo exemplo mais antigo registrado, é outra evidência que sugere que suas culturas podem ter sido bastante sofisticadas. Algumas das mais antigas pinturas figurativas conhecidas do mundo, animais parecidos com gado pintados em paredes de cavernas há pelo menos 40.000 anos, também foram encontrados nesta mesma região de Bornéu.

Imagens do esqueleto em questão, tanto no ato de sua escavação, quanto já registrado e catalogado pela equipe de pesquisa.

A natureza incrivelmente rara das descobertas de esqueletos amputados, torna difícil dizer se a amputação foi em si um ato isolado de um ser humano ou grupo extraordinário, ou se é indicativo de práticas médicas mais comuns na Bornéu pré-histórica.


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