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Mitos que Inventamos Sobre a Idade da Pedra

As visões comumente aceitas sobre a história antiga frequentemente são influenciadas pelo que sobrevive no registro arqueológico - e pelos preconceitos culturais, conclusão um tanto obvia, mas só depois que somos avisados sobre eles.

Um exemplo ilustrativo que induz ao erro interpretativo.


QUANDO A MAIORIA DO PÚBLICO em geral reflete sobre a Idade da Pedra, provavelmente imaginam um hominídeo adulto do sexo masculino manejando uma ferramenta de pedra, vivendo em cavernas e resmungando para se comunicar. Essa imagem é equivocada e incompleta, talvez fruto de uma Hollywood desinformada ou pouca interessada em estudos e retratação verossímil, haja vista que a maioria do público que se interessa superficialmente pelo tema História, não necessariamente estuda os tópicos de interesse, mas absorve do que o cerca vídeos rasos, pílulas de informação de segundos, e filmes. Deixando fragmentos errôneos de que a Idade da Pedra assume que apenas homens adultos fabricavam e usavam ferramentas de pedra, e que pedras eram os únicos materiais nos kits de ferramentas cotidianas dessas pessoas antigas.


Ambas as suposições são, no mínimo, questionáveis; na pior das hipóteses, elas estão puramente erradas.


Primeiro, vamos abordar o estereótipo sobre materiais brutos. Descobertas recentes no Quênia sugerem que as primeiras ferramentas de pedra podem ter até 3,3 milhões de anos. Outros achados, dessa vez na região que hoje temos a China, sugerem que ferramentas de osso - usadas, por exemplo, para afiar machados de pedra - podem ter até 115.000 anos, aproximadamente o período onde supõe-se ter iniciado a revolução cognitiva humana, segundo Yuval Noah Harari em seu livro Sapiens, Uma Breve História da Humanidade, de 2020. Uma dedução lógica desses achados que evoluíram para estudos profundos e frutíferos com novas hipóteses comprováveis poderia ser que: nossos ancestrais humanos fabricaram ferramentas de pedra por quase 3 milhões de anos antes de fazerem e usarem ferramentas feitas de materiais perecíveis, como osso.



Por outro lado, pode ser verdade que nossos ancestrais primatas fabricaram exclusivamente ferramentas de pedra por mais de 3 milhões de anos, 30 vezes mais tempo do que o tempo em que produziram ferramentas com materiais deterioráveis, tal como ossos, madeira e fibras?

É possível, porém ilógico pensar que tenha sido esse o caso. Uma explicação melhor reside no fato de que materiais perecíveis não se preservam bem ao longo do tempo, enquanto as ferramentas de pedra permanecem bem preservadas por éons.



Essa diferença nas taxas de preservação há muito tempo afeta nossos entendimentos científicos do passado pré-histórico - e não para melhor perspectiva ou resultados.


Stephen E. Nash, historiador que entre estuda a evolução humana e desenvolve estudos na área da paleoantropologia, também é arqueólogo pelo Museu Natural e Ciência de Denver, EUA, e atualmente se envolve em uma ampla gama de assuntos, incluindo dendrocronologia (datação por anéis de árvores), a história de museus, arqueologia do centro-oeste do Novo México e esculturas em gemas de Vasily Konovalenko, artista soviético. Nash publicou inúmeros livros, incluindo "Histórias em Pedra: As Esculturas Encantadas em Gema de Vasily Konovalenko" e "A Chegada de um Antropólogo: Uma Memória". Pare da proposta de estudo abaixo é levantada por ele.


NA DÉCADA DE 1830, o arqueólogo e curador dinamarquês Christian Jürgensen Thomsen definiu o "sistema das três idades". Nesse quadro interpretativo, Thomsen dividiu a história humana, conforme ele a entendia, de acordo com os tipos de ferramentas encontradas em sítios arqueológicos no norte da Europa. Thomsen não possuía técnicas absolutas de datação disponíveis na época para guiar sua análise, tal como datação por radiocarbono ou dendrocronologia; em invés disso, ele usava a lei da superposição – uma maneira elegante de dizer que o material mais antigo encontrado em um sítio arqueológico está, exceto por qualquer perturbação, enterrado mais profundamente. Datação por estratificação. Pense na lixeira do seu escritório: no final da semana, os detritos de segunda-feira estarão no fundo, os de quarta-feira no meio e os de sexta-feira no topo. Apenas esse método para a datação dos achados.


Idade da Pedra: termino em 3300 aEC • Idade do Bronze de 3300 a 1200 aEC • Idade do Ferro de 1200 aEC a 550 aEC - Lembrando que as datas são números impositivos, ou seja, são datas que representam um período e não um exato momento na história humana.


Thomsen nomeou o período mais antigo em seu sistema de Idade da Pedra, o próximo de Idade do Bronze, e o período final a Idade do Ferro, com base nas ferramentas mais comuns encontradas em cada período.


Quase 30 anos depois, o polímata inglês Sir John Lubbock refinou as categorias de Thomsen para incluir os termos Paleolítico, ou Idade da Pedra Antiga, e Neolítico, Idade da Pedra Nova. Por mais de 150 anos, o sistema das três idades de Thomsen e os refinamentos de Lubbock provaram ser úteis para organizar exposições de museus, pesquisas arqueológicas e interpretações acadêmicas, o que levou à consolidação dos termos e posterior refinamento dos períodos.


Ao aplicar o nome Idade da Pedra a um período de tempo arqueológico, no entanto, a suposição não tão implícita é que as pessoas vivas durante esse tempo só faziam ferramentas de pedra. Eis aí o problema com a confusão dentro de visões rasas sobre o assunto. Isso restringe desnecessariamente nosso pensamento.

Então, qual o melhor termo poderia ser usado para esse período inicial?

A Primeira Idade das Ferramentas. Parece estranho, é estranho, mas por mais estranho que seja por três vezes seguidas: é necessário o revisionismo.

Se um animal possui habilidades cognitivas e habilidades mecânicas necessárias para fabricar ferramentas de pedra, esse animal tem as habilidades necessárias para criar ferramentas rudimentares feitas de outros materiais brutos, incluindo fibras vegetais, peles e couro, ossos e madeira. As habilidades importantes são identificar uma tarefa que requer ajuda e moldar algum material para atender a essa necessidade.

Muitos animais, incluindo macacos e corvos, fabricam e usam ferramentas de pedra e materiais perecíveis. A ideia de que nossos ancestrais hominídeos não fizeram o mesmo é inconcebível, e no meio acadêmico é largamente compreendido que esse é o fato, e não há tantos resquícios, pois diferentes de pedras, os materiais usados eram destrutíveis perante ao passar do tempo e intemperes, porém, mesmo assim há ainda vários exemplares encontrados que justificam essas afirmações.


Não deve surpreender ninguém que o período mais antigo no sistema das três idades de Thomsen se concentre em ferramentas de pedra: elas se preservam por mais tempo. O que deve nos surpreender é a estranha suposição de que as pessoas que fabricaram essas ferramentas de pedra bem preservadas ignoraram as propriedades úteis de outros materiais.


A ausência de evidências não é evidência de ausência - especialmente na arqueologia! Já dizia Carl Sagan.

Carl Sagan, nascido em 09/03/1934 e falecido em 20/12/1996, foi um excepcional cientista planetário, astrônomo, astrobiólogo, astrofísico, escritor, divulgador científico e ativista norte-americano que inspirou gerações e ainda inspira. Em mais uma de suas frases célebres e uma das mais famosos, expõe mais uma vez sua aptidão inata para a filosofia universal. "Nós somos todos feitos de poeira estelar".


E AGORA, há o segundo estereótipo: por que muitas pessoas assumem que apenas homens trabalhavam com ferramentas de pedra?

Isso ocorre simplesmente porque a sociedade ocidental valoriza a ideia dominante, porém reducionista, de que os homens são caçadores, as mulheres são coletoras e estas últimas devem cuidar do lar. Some a isso o fato de que, até recentemente, a grande maioria dos arqueólogos eram homens, e acabamos em uma situação em que o trabalho das mulheres e, ainda mais, o trabalho e o brincar das crianças não receberam a devida atenção acadêmica. Mulheres e crianças frequentemente são tornadas invisíveis nas reconstruções das sociedades humanas passadas.


As mulheres tendem a receber crédito por fazer cerâmica e cestaria, que aparecem no registro arqueológico cerca de 10.000 anos atrás.


Por que as mulheres são reconhecidas por isso, mas não por ferramentas de pedra?


A hipótese levantada é porque grande parte do trabalho intensivo de fabricação de cerâmica e cestaria é tipicamente sedentário, vinculando conceitualmente as mulheres aos afazeres domésticos.

Estátua exposta hoje no Museu de Västernorrlands na Suécia que se baseou na estrutura de um esqueleto encontrado em 1923 de uma mulher da época aproximada de 6.000 aEC. A representação 3D se baseaia não apenas na estrutura física, mas também na região e tipos de alimentos potenciais da época.


Contudo, estudos de estruturas ósseas de esqueletos de mulheres desse período indicam que as mulheres tinham formações musculares diferentes dos homens e ressaltam costas largas e musculosas, descompensação em um dos braços, sendo mais forte que o outro, e homens esguios e ágeis. O que corrobora com algumas hipóteses machistas, porém corretas e outras nem tanto. Pois homens esguios são melhores caçadores e coletores, porém não ficavam o tempo todo em caçadas, sendo assim tendo tempo de sobra para possíveis trabalhos de curtumes (curtimento do couro dos animais caçados) e afazeres “sedentários” como citados em teses anteriores. Já as mulheres, mais robustas e fortes, arrastavam as carcaças das presas dos homens caçadores, separavam carne do couro e ossos, reservavam chifres e demais utilizáveis dos corpos dos animais abatidos, o que demandava tempo e força, tudo menos sedentarismo. Novas teses propõem que os homens tinham mais tempo livre que as mulheres e possivelmente era nesses momentos que se dedicavam a tarefas que demandavam menos esforço que cuidar dos processos pós-caçadas.


Há um campo da ciência que estudo esse tipo de comportamento homem x mulher, hoje nomeado como arqueologia de sexo (masculino e feminino, assim como as possíveis variações impostas por cada antro social de cada época). Nesse seguimento de estudos a arqueóloga Margaret "Meg" Conkey expos que: "Sabemos que mulheres e crianças existiam na pré-história, mas de forma muito diferente do que compreendemos hoje".

A participação de ambos os sexos na fabricação de utensílios de pedra passa a ser uma verdade óbvia, e ainda hoje muitas pessoas, incluindo arqueólogos, ainda assumem que ferramentas de pedra são estritamente do domínio masculino, mas assumem isso por mera desinformação.

Mulheres e crianças frequentemente são tornadas invisíveis nas reconstruções das sociedades humanas passadas. Um erro frequente e lamentável.


Como Conkey e a arqueóloga Joan Gero demonstraram de forma brilhante, quase três décadas atrás em seu volume editado "Engendering Archaeology: Women and Prehistory", ou “Engendrando Arqueologia: Mulheres e Pré-história” em tradução literal, todos faziam ferramentas de pedra. De fato, mulheres e crianças hoje fabricam e usam ferramentas de pedra em todo o mundo, e não há motivo para acreditar que isso seja um fenômeno recente. Muitas ferramentas de pedra são chamadas de "raspadores", pois arqueólogos levantam a hipótese que elas eram usadas para raspar peles, tirando o excesso de carne e restos da parte em contato com a área interna do couro do animal caçado - o que pode ser visto como um trabalho feminino, embora tenha sido realizado por homens ou mulheres conforme a necessidade surgisse.


1a Edição em Março/1991


Ao se referir a uma era passada como a "Idade da Pedra" e deixar de desafiar continuamente o estereótipo do "homem caçador", o mundo moderno faz um desserviço à arqueologia e à sociedade. Inúmeras sociedades humanas ao redor do mundo não apresentam papéis binários de sexo - em algumas sociedades nativas americanas, até cinco sexos diferentes são reconhecidos, e com fronteiras às vezes fluidas entre eles, ou seja, cotidianamente não há preconceito ou distinção entre os indivíduos, apenas respeitos de todos os lados e comportamento coerente de todos.


Sim, o passado pode ser antigo, mas não primitivo. Estudar história é conhecer o passado para também não cometermos os mesmos erros no presente e, principalmente, no futuro.

Por Maik Bárbara

@HipoteseZero



Bibliografia

Nash, Stephen E. Stories in Stone: The Enchanted Gem-Carving Sculptures of Vasily Konovalenko. Denver: Denver Museum of Nature & Science, 2020.


Nash, Stephen E. An Anthropologist's Arrival: A Memoir. Denver: Denver Museum of Nature & Science, 2019.


Conkey, Margaret W., and Gero, Joan M. "Engendering Archaeology: Women and Prehistory." In Engendering Archaeology: Women and Prehistory, edited by Margaret W. Conkey and Joan M. Gero, 1-16. Oxford: Blackwell Publishers, 1997.


Harari, Yuval Noah. Sapiens: Uma Breve História da Humanidade. Companhia das Letras, 2020.

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