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Mitos de criação do Antigo Egito - PT - I

Atualizado: 1 de nov. de 2023


Conheça um pouco sobre os vários antigos mitos egípcios sobre a criação do mundo e do homem, famosos por seus múltiplos deuses e suas versões diferentes.

*Que fique claro que além de serem diversos mitos de criação, existem também versões diferentes do mesmo mito, pois mudaram com o passar do tempo. Aqui utilizaremos somente as versões tidas como mais antigas, descritas nos papiros e textos que demonstrarei e citarei.*

COSMOGONIA

A palavra cosmogonia (κοσμογονία em grego) obviamente remete a outro termo grego (κόσμος) que significa (Cosmos) ou mundo e (γονία) gonia, que significa origem, sendo assim “origem do mundo”. Na astronomia, cosmogonia refere-se ao estudo da origem de determinados objetos ou sistemas astrofísicos, e é mais comumente usada em referência à origem do universo, do sistema solar, ou da própria terra.

Em resumo, a cosmogonia é um termo usado para descrever qualquer modelo que explique, ou tente explicar a origem do cosmos, do universo, ou do mundo como conhecemos. Essa cosmogonia geralmente é composta por narrações que podem ser de origem religiosa, mítica ou científica, mas como sabemos, as antigas civilizações tendiam a unificar essas narrativas míticas com crenças religiosas, devido à falta de conhecimento cientifico.

Como se sabe, não foi diferente no antigo Egito, em verdade se pararmos para pensar até hoje ainda é assim, a maioria das pessoas pertence a alguma religião que acredita em um deus criador, ou deuses que criaram o mundo e as coisas e seres que nele habitam.

Bom, o presente não nos interessa neste artigo, mas sim tentar descrever de forma resumida alguns dos mitos de criação do mundo, segundo os egípcios.

COSMOGONIA DE QUEMUN (HERMÓPOLIS)

O primeiro mito que explanaremos é o da cidade egípcia de Quemun (Khmun em egípcio antigo), mais conhecida pelo seu nome grego Hermópolis Magna, ou simplesmente Hermópolis, título que ganhou após a mitologia grega incorporar o deus egípcio Thoth como o personagem mítico Hermes, por isso Hermópolis (A Cidade de Hermes).

O mito em questão é contado em um papiro chamado “Papiro Leyden 350” que nos presentes dias encontra-se no Museu de Leyden, na Holanda. O papiro conta a história da criação do mundo e dos primeiros deuses, segundo a visão cosmogônica de Hermópolis e mais algumas cidades egípcias.

Leyden 350 papyrus

De acordo com o papiro, no começo dos tempos nada existia, apenas o oceano de águas caóticas primordiais conhecido posteriormente como “Nun”. Da movimentação dessas aguas primordiais, surgem quatro casais de seres, descritos pela palavra grega (Demiurgos), mas conhecidos como “Ogdoada” termo esse que também vem do grego, pois na língua egípcia dizia-se algo como "Hemenu".

Eram quatro deuses masculinos com cabeça de sapo e quatro deusas femininas com cabeça de cobra. Os primeiros desses seres foram o masculino Nun (personificando o oceano primordial) e a feminina Naunet, que por sua vez representam as águas caóticas desse oceano cósmico. Em seguida nós temos Hehu e Hehet, que segundo algumas traduções representam “o liquido infinito”.

Prosseguindo nós temos Ket e Keket, que significariam “o escuro”. E por último, nós temos Amon e Amonet, que representariam “o oculto”.

Representação egípcia da Ogdoada

Se analisarmos disposição dos significados dos nomes de cada casal, percebemos que eles representam um tipo de definição, que pode ser entendida como “O liquido (ou água) escuro que está oculto”, o que podemos remeter a diversos outros mitos de criação de múltiplas civilizações do passado, onde tudo começava com água, no caos, na ausência de luz e de formas.

Segundo o texto, ao se movimentarem, os deuses da Ogdoada magicamente fizeram surgir no meio do Nun, um monte piramidal chamado “Tatenen” ou “Benben”. Interessantemente, a expressão "pedra benben" é usada para se referir à pedra que ficava no topo das pirâmides egípcias. Também nos faz lembrar do famoso Etemenanki (em sumério: É.TEMEN.AN.KI; "templo da fundação do Céu e da Terra"), apenas a título de curiosidade.

Voltando ao mito, no topo desse monte piramidal surge uma flor de lótus, que ao desabrochar liberta um escaravelho, que é conhecido como Kheperu (Khepri em grego), a primeira forma do deus Sol. A partir desse momento vemos o surgimento de uma das mais famosas e importantes divindades do Egito antigo, o deus sol RÁ (também conhecido como RÉ).

Ele surge quando a carapaça de Khepri se abre, dando lugar a uma criança divina, que representa o sol fraco do amanhecer, logo se tornando adulto e assumindo o papel de RÁ, o deus Sol. O deus Rá é representado como um humanoide com cabeça de falcão, segurando um cetro chamado “was” (poder) em uma mão e a cruz ansata “Ankh” (vida) na outra. Ele também conta com o disco solar fixado no alto se sua cabeça, conhecido como Aton, e que viria a simbolizar outro deus no futuro.

Representação egípcia de Rá

Dando continuidade ao papiro, é dito que os deuses da Ogdoada se sentem orgulhosos de RÁ, sua melhor criação e decidem não mais interferir no cosmos, então eles simplesmente deixam de existir (há versões posteriores que dão outros destinos para estes deuses). Rá por sua vez, dá origem ao mundo como conhecemos, bem como a outros deuses, e quando acaba chora de felicidade e orgulho, e cada uma de suas lagrimas se torna responsável pela criação de um ser humano, já agregando a criação do homem ao mesmo mito.

Existe ainda uma segunda versão sobre o mito de Hermópolis onde também surge o monte primordial, mas nesse caso, Tahueth ( nome utilizado para Thoth, no mito), utilizando a forma do pássaro Íbis, pousa em seu topo e deposita um ovo, e desse ovo nasce o sol em mais uma forma, ou seja, RÁ.

Essa segunda versão é um pouco menos completa, por conta do estado dos textos encontrados, mas alguns acreditam que era a mais difundida na época, ou pelo menos, passou a ser, tanto é que a cidade em questão era considerada a cidade do deus Thoth, mesmo com Rá sendo o criador do mundo.

COSMOGONIA DE MEHET (HELIÓPOLIS)

O mito de criação a seguir é o da cidade de Mehet, conhecida pelo seu nome grego Heliópolis. Uma parte do mito encarrega-se de explicar como surgira o deus Atum, também conhecido como Tum ou A.tum-Rá o autocriado, que por sua vez já existia desde o início, mas estava inerte. Atum então, emerge das profundezas do Nun, impulsionado pelo movimento das águas caóticas.

Representação egípcia de Atum

Como vimos, Atum também é uma representação de Rá para os cidadãos de Heliópolis. Isso ocorre devido a mudanças políticas e religiosas na cidade em questão, com Atum passando a ser reconhecido como deus sol e criador, sendo chamado de Atum-Rá. Isso pode ser analisado se observarmos um trecho bastante intrigante de outro papiro, que descreve o momento da criação dos dois primeiros filhos de Atum, Shu (deus do ar) e Tefnut (deusa da umidade).

Esse texto pode ser encontrado em um papiro egípcio, cujo nome em português quer dizer (Livro para conhecer as criações da Rá e destruir Apep), que foi traduzido em 1933 pelo grande egiptólogo Raymond Faulkner. O texto diz o seguinte:

Saudações senhor de tudo, quando eu surgi, surgi em meu ser.
Eu surgi na forma de Kephri que apareceu na primeira ocasião.
Eu surgi por que era o mais antigo dos deuses primordiais que eu mesmo produzi.
E meu nome era mais antigo que o deles, em tempos primordiais.
Eu fiz o que desejei nessa terra, e eu os fiz nascer.
Eu cuspi Shu e expectorei Tefnut.
Eu usei minha própria boca e a magia era meu nome. ”

Atum também emerge do Nun, porém ele surge se autocriando, não criado por outros deuses, como na primeira versão. Ele surge na forma de Kephri, que também é o escaravelho citado na primeira versão, confirmando que os mitos de casa cidade não eram concorrentes entre si, mas por muitas vezes se completavam.

Existe uma corrente de pesquisadores que afirmam que o que o texto diz é que Atum, após despertado, se masturba e ejacula, gerando Shu e Tefnut. Isso ocorre por que o termo para o verbo cuspir em Egípcio antigo era (spshr), que também é o mesmo usado para o verbo ejacular, fato que gerou controvérsias entre os filólogos.

Em seguida o texto continua:

“Eu fiz todos os deuses a partir de meu Ba (alma), eu criei alguns deles no Nun como o grande inerte, antes ainda que eu não havia encontrado um local para ficar em pé.
Shu e Tefnut deram origem a Geb (deus da terra) e Nut (deusa do céu).
Geb e Nut deram origem a Sihor (Osíris), Setekh (Seth), Heru-Ur (Hórus o velho) Aset (Ísis) e Nebthet (Nefits). ”

Oque chama atenção é que em algumas versões deste mito, Geb e Nut tiveram apenas quatro filhos: Osíris, Seth, Ísis e Nefits, sendo que nessa versão em questão, Hórus é filho de Osíris e Ísis, não seu irmão, como na primeira. Em todo caso, existe também um outro mito egípcio que por sua vez, confirma que a versão em que Hórus também é filho de Geb e Nut pode ser a mais antiga. Este mito em questão é o mito dos “Cinco não dias”, onde Atum-Rá teria proibido Geb e Nut de procriarem, colocando o deus Shu entre os dois.

Ao analisarmos, podemos perceber que esse mito na verdade descreve inclusive a disposição do mundo como conhecemos, com o céu (Geb) em cima, a terra (Nut) em baixo e o ar (Shu) entre os dois. Mas voltando ao mito em questão: O deus da sabedoria e da escrita, Tahueth (Thoth), sente pena de Nut e resolve ajuda-la. Thoth então chama Shu para jogar uma partida de Senet, um antigo jogo de tabuleiro egípcio.

Antiga pintura representando a rainha Nefertari jogando Senet.

Como já dito, Thoth era o deus da sabedoria, e como podemos imaginar, ele venceu Shu por cinco vezes consecutivas e em cada uma dessas vezes ele ganhou um dia a mais para o ano. Esses cinco dias extras ganhados por Thoth ficaram conhecido como “dias epagômenos” e segundo o mito, foi nesses cinco dias que nasceram os cinco filhos de Geb e Nut, sendo que no primeiro dia nascera Osíris, no segundo dia nasceu Hórus, no terceiro dia nasce Seth, no quarto dia nasce Isis e no quinto e último dia, nasceu Neftis.

De qualquer maneira as duas versões em questão se desenvolvem praticamente da mesma maneira. Após o nascimento desses deuses filhos de Geb e Nut, os mesmo se encarregam de iniciar o processo de criação do homem. Posteriormente, Osíris e Isis dariam início a monarquia faraónica egípcia, quando se acreditava que todos os faraós seriam da linhagem direta desse casal divino.

Este é o fim da parte I deste artigo, voltaremos na semana que vem com a parte II.

Bibliografia:


Matt Clayton - Egyptian Mythology: A Fascinating Guide to Understanding the Gods, Goddesses, Myths, and Mortals.

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