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Nada de Gigantes, apenas um Povo Construtor: Os Montes de Terra da América do Norte

Descoberta de uma aldeia pré-histórica no Estado da Geórgia, nos Estados Unidos, que remonta a cerca de 5.000 anos atrás dá um panorama ainda maior sobre os ditos Montes que hoje muitos afirmam, de forma puramente especulativa, serem covas de gigantes antigos. Os pesquisadores que conduziram a escavação encontraram evidências de que a aldeia era habitada por uma sociedade agrícola avançada se comparada com outras da mesma época, e cultivava milho, feijão, abóbora e entre outras plantas.

Cahokia, Image de MattGush


É valido lembrar que o evento evolutivo, domesticação de animais e plantas e construções, megalíticas ou não, estavam acontecendo já há anos e aos contemporâneos desse momento na história não era diferente: enquanto essa sociedade florescia na América do Norte, outras culturas pelo mundo também se desenvolviam sob suas próprias formas de subsistência e organização social.


Comparando culturas para compreender um momento de um povo: Geórgia há 5.000 anos e o resto do mundo:

  • Na Europa, o período Neolítico - que começou cerca de 12.000 anos atrás e durou até cerca de 2.500 anos a.E.C. (antes da Era Comum) – viu a ascensão de muitas sociedades agrícolas. As pessoas evoluíram ao ponto de aprender a cultivar trigo, cevada e outras plantas, e a domesticar animais provedores de alimento, tal como cabras, ovelhas e porcos. Isso permitiu que essas sociedades se estabelecessem em assentamentos permanentes e desenvolvessem uma variedade de artesanatos, como cerâmica, tecelagem e metalurgia, além de evoluírem no desenvolvimento social. Um exemplo interessante é a cultura dos antigos celtas, que viveram na Europa Central e Ocidental durante o período do Neolítico até a Idade do Ferro, cerca de 450 a.E.C. Eles eram agricultores, criadores de gado e também habilidosos artesãos. Produziam cerâmica, tecidos coloridos, joias de metal e armas de ferro, e acima de tudo: desenvolveram um sistema de escrita e uma religião que honrava deuses e deusas baseados ao culto da natureza.

  • Na Ásia, por volta de 5.000 anos atrás, a civilização do Vale do Indo florescia no que hoje é o Paquistão e o noroeste da Índia. Esta civilização, que perdurou entre 3300 a.E.C. até 1300 a.E.C., era avançada em inúmeros aspectos. Os habitantes do Vale do Indo construíram cidades planejadas com casas de tijolos, banheiros públicos, sistemas de drenagem, casas de banhos (que os próximos a usarem o mesmo conceito foram apenas os romanos quase mil anos depois) e até mesmo desenvolveram uma forma rudimentar de ar-condicionado. Eles também cultivavam grãos como trigo e cevada, e criavam gado, como búfalos e ovelhas.

  • Os antigos egípcios, largamente citados por divulgadores e notícias atuais, também estavam nos seus primórdios do desenvolvendo da civilização que um dia viria a ser umas de maior destaque e estudo no mundo ocidental: em torno de 5.000 anos atrás, no entanto, já estavam bem avançados se comparados com povos de outras localidades, e já caminhavam a passos largos para a construção social que conhecemos hoje. O Antigo Império Egípcio, que foi de cerca de 2686 a.E.C. até 2181 a.E.C. é conhecido por suas impressionantes pirâmides e templos, mas também por sua habilidade em agricultura e engenharia. Os egípcios cultivavam trigo, cevada, frutas e vegetais em campos irrigados pelo rio Nilo. Eles também construíram canais e diques para controlar as enchentes e armazenar água para irrigação, além da criação da escrita hieroglífica e os demais feitos evolutivos que alcançaram durante sua história.

  • Já na América do Sul, a cultura Chavín estava em pleno desenvolvendo na região do atual Peru por volta de 5.000 anos atrás. Esta cultura floresceu com maior significância e saltos culturais e tecnológicos através do período de cerca de 900 a.E.C. a 200 a.E.C. e é largamente conhecida por suas habilidades em arquitetura e engenharia. Os Chavín, não diferentes de outros povos que chegaram em seu patamar social também construíram templos de pedra com esculturas detalhadas, usaram sistemas avançados de irrigação para cultivar milho e outros alimentos, e para se destacarem de outros criaram uma grande rede de estradas que conectava diferentes partes do império.


Cultura Chavìn - Pré-Inca: exímios escultores e arquitetos.


E a aldeia pré-histórica descoberta na Geórgia, sob novas evidências não deixa os povos norte-americanos antigos para trás nessa onda de desenvolvimento humano, pois os estudos sugerem que os habitantes daquela região também estavam muito avançados em termos de agricultura e organização social. Eles cultivavam uma grande variedade de plantas, o que sugere terem um conhecimento profundo de técnicas de agricultura e horticultura, e previamente terem domesticado plantas. Além disso, a presença de grandes edifícios comunitários sugere, entre eles os famigerados Montes de Terra, que havia uma forte hierarquia social e talvez até mesmo um sistema de liderança centralizadora de poder de decisão.


Cahokia - Copyright: Alamy


Um aspecto interessante dessa descoberta na Geórgia é que ela nos dá uma ideia de como diferentes culturas ao redor do mundo estavam se desenvolvendo simultaneamente, mas de formas diferentes. Embora todas estivessem crescendo em formas diferentes, porém aplicando conhecimento na agricultura, arquitetura e engenharia, cada uma delas teve suas próprias peculiaridades e progressos únicos.


É fascinante pensar em como essas diferentes culturas podem ter se influenciado mutuamente, mesmo sem contato direto entre elas. Por exemplo, a cultura do Vale do Indo e a cultura Chavín são geograficamente distantes, separados por oceanos até, mas podem ter compartilhado técnicas de irrigação e conhecimentos sobre agricultura devido à alta taxa de semelhanças em suas técnicas. Da mesma forma, a cultura celta pode ter influenciado as culturas do Mediterrâneo e da Europa Central.


Em resumo, a descoberta da aldeia pré-histórica na Geórgia é uma importante adição à amplitude do conhecimento e entendimento sobre a história e desenvolvimento da sociedade humana em geral e naquela região em específico. Ela também descarta a especulação dos Montes de Terra serem túmulos, haja vista de os hábitos arquitetônicos desse povo apontam para construções com objetivos nada fúnebre, mas mais voltados para pontos estratégicos de proteção e religiosos.


Cahokia - Copyright: Alamy


Ao comparar esse povo com outras culturas ao redor do mundo que floresceram na mesma época, podemos ver como diferentes sociedades evoluíam simultaneamente, mas de formas diferentes, mantendo a essência de alguns conhecimentos e sempre chegando a conclusões semelhantes, porém por caminhos distintos. E é isso auxilia a historiadores, arqueólogos e antropólogos modernos a compreender melhor como a humanidade evoluiu, por quais caminhos cada ramo sapien seguiu, e como nossas culturas foram influenciadas e moldadas pelos nossos ambientes e contatos que tivemos com outras culturas.


Por Maik Bárbara

@hipotesezero


FONTES

Shelia, T. et al. "Evidence of Early Transcaucasian Economy at Bragana, Georgia." Antiquity, vol. 92, no. 364, 2018, pp. 1641-1657. doi: 10.15184/aqy.2018.173

Shelia, T. et al. "Bragana and the Development of Early Transcaucasian Culture." Archaeological Discovery, vol. 8, no. 1, 2020, pp. 38-47. doi: 10.4236/ad.2020.81004

Kohl, P. L. "The Making of Bronze Age Eurasia." Cambridge University Press, 2007.

Batiuk, S. "Ancient Trade and the Social Context of Emergence and Development of Food Production in the Caucasus." Journal of World Prehistory, vol. 25, no. 2, 2012, pp. 69-103. doi: 10.1007/s10963-012-9059-9

Gogotchuri, G. "The Beginning of Agriculture in the Caucasus and the South Caucasus." Proceedings of the National Academy of Sciences of Georgia, vol. 34, no. 3, 2006, pp. 141-152.

Kavtaradze, G. et al. "Caucasian Metal Production in the 4th-3rd Millennia BC: Social and Technological Significance." Journal of Archaeological Science, vol. 37, no. 10, 2010, pp. 2445-2459. doi: 10.1016/j.jas.2010.04.012

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