InteligĂȘncia Artificial Capaz de Decifrar Tabuletas Escritas em Cuneiforme
- Edson Almeida
- 7 de mar. de 2023
- 4 min de leitura
Atualizado: 1 de nov. de 2023

Cientistas Israelenses Desenvolvem Sistema de InteligĂȘncia Artificial que Pode Prever Palavras e Frases em Tabletes de Argila Parcialmente Danificados, bem como traduzir e transliterar inscriçÔes.
Rachaduras ou pedaços quebrados, sĂŁo coisas bastante comuns para os que estudam e trabalham a escrita cuneiforme, apenas 0,8% dos tabletes em argila estĂŁo perfeitamente legĂveis. Mas e se isso nĂŁo importasse? E se um "robĂŽ" pudesse decodificar as linhas destruĂdas, jĂĄ traduzindo para vocĂȘ? Ă o que propĂ”e uma equipe de cientistas e tĂ©cnicos em informĂĄtica de uma Universidade Israelita.
O Cuneiforme
Ao longo de sua trajetĂłria no planeta, a humanidade criou diversas formas de comunicação, como a oralidade, sĂmbolos e desenhos. Uma das primeiras maneiras de trocar mensagens e registrar experiĂȘncias foi a pintura rupestre. Estudiosos jĂĄ encontraram em paredes de cavernas pelo mundo, gravaçÔes que datam de 80 mil anos atrĂĄs. AtĂ© que a escrita surgiu.
Em mais ou menos 3500 a.e.c., as primeiras escritas começaram a ser gravadas em vasos, cerĂąmicas, tijolos e posteriormente, nas tabuletas de argila. Essa primeira forma de escrita ainda nĂŁo era o cuneiforme, mas o protocuneiforme (tambĂ©m conhecido como pre-cuneiforme), que teve origem com os Ubaidianos, ancestrais dos sumĂ©rios, e posteriormente, foi aprimorado por estes. Era um meio mais arcaico de escrita, onde os sĂmbolos eram geralmente desenhados e nĂŁo impressos na argila.
O protocuneiforme foi a forma de escrita oficial da mesopotĂąmia atĂ© mais ou menos 3.000-2.950 a.e.c, quando a escrita cuneiforme passou a ser utilizada de forma geral. Com um instrumento em forma de cunha, feito de lascas de bamboo, a argila era marcada e os sĂmbolos gravados, entĂŁo as tabuletas eram levadas ao forno.

Praticamente todas culturas que empregavam a linguagem cuneiforme desapareceram uma a uma antes do inĂcio da era comum, e seus registros escritos caĂram no esquecimento. Essa foi uma das razĂ”es foi o progresso vitorioso da escrita fenĂcia nas seçÔes ocidentais do Oriente MĂ©dio e nas terras clĂĄssicas da Europa mediterrĂąnea. A este sistema de escrita de eficiĂȘncia e economia superiores, o cuneiforme nĂŁo poderia oferecer uma concorrĂȘncia sĂ©ria.
A redescoberta dos materiais e a reconquista das escritas e linguagens mesopotĂąmicas foram as conquistas dos tempos modernos. Digo modernos, pois foi apenas nos Ășltimos 200 anos que tivemos certeza da existĂȘncia dos povos e impĂ©rios sumĂ©rios. Paradoxalmente, o processo começou com a Ășltima ramificação do cuneiforme propriamente dito, as inscriçÔes de Ganjinameh, feitas para os reis Dario e Xerxes (VI a IV a.e.c) da PĂ©rsia.
Isso atĂ© e compreensĂvel, porque nesta Ă©poca os persas eram os Ășltimos que ainda utilizavam o cuneiforme, principalmente para escrita monumental. Exemplos dispersos de inscriçÔes persas antigas foram relatados na PĂ©rsia desde o sĂ©culo XVII. Esta inscrição trilĂngue possui 414 linhas escritas em cuneiforme persa antigo, 260 em cuneiforme elamita moderno e 112 em cuneiforme acadiano.

DĂ©cadas se passaram atĂ© que as trĂȘs inscriçÔes fossem traduzidas, e apĂłs isto, tornou-se bem mais fĂĄcil a decodificação das tabuletas e dos diversos tipos de cuneiforme, pois utilizando-se das tĂ©cnicas utilizadas pelos primeiros filĂłlogos arqueĂłlogos e historiadores, conseguimos evoluir nosso conhecimento sobre o cuneiforme, hoje em dia, conseguimos traduzi-lo razoavelmente bem.
O grande problema em tudo isso, Ă© que os textos que queremos traduzir estĂŁo, como sabemos, em tabuletas de argila que datam de 2 a 5 mil anos atrĂĄs, e grande parte destas estĂĄ destruĂda, ilegĂvel ou incompleta. Ă aĂ que entra uma equipe de pesquisadores da Jerusalem's Hebrew University.
InteligĂȘncia Artificial
Tal equipe de arqueĂłlogos, historiadores e profissionais em computação, liderada pelo Dr. Shia Gordin, criou um mecanismo que pode decodificar e prever palavras em linhas de tabletes danificados, assim como quando vocĂȘ digita uma palavra no Google e a função de previsĂŁo automĂĄtica Ă© ativada.

A inteligĂȘncia artificial Ă© um programa de computador baseado em algoritmos, que simulam a inteligĂȘncia humana de forma mais organizada e rĂĄpida, e aplicam-na em uma questĂŁo ou problema. A IA tornou-se recentemente uma grande aliada dos que trabalham com processamento de linguagem, pois pode ser alimentada e atualizada de acordo com a evolução linguĂstica. Essa em questĂŁo, criada pelos Israelitas, foi alimentada com o vocabulĂĄrio de dezenas de estilos de cuneiforme, segundo reportagem do Daily Mail.
Shia Gordin, arqueĂłlogo oficial da pesquisa, afirma que antes da IA ser utilizada, os arqueĂłlogos e especialistas em linguagem trabalhavam de forma "subjetiva e demorada", o que mudou totalmente apĂłs a inclusĂŁo do novo sistema. Ele diz:
âO mĂ©todo manual estĂĄ se tornando cada vez mais difĂcil, pois muitos tabletes jĂĄ se deterioraram tanto, que os pesquisadores dependem de dicas contextuais para preencher manualmente o texto que falta"
O pesquisador explicou que a equipe usou um modelo jĂĄ treinado em lĂnguas semĂticas, incluindo o hebraico, todas semelhantes ao acadiano, e em seguida, testaram o sistema ocultando partes existentes do tablete interpretado. O modelo previu as palavras que faltavam com â90 por cento de precisĂŁoâ. Assim, a MĂĄquina BabilĂŽnica foi usada para preencher as lacunas nas antigas tabuletas persas datadas entre os sĂ©culos VI e IV a.e.c.
Incrivelmente, a IA conseguiu perfeitamente realizar nĂŁo sĂł a tradução do que estava legĂvel no cuneiforme persa, como gerou opçÔes de logogramas e termos que estavam ilegĂveis ou destruĂdos utilizando o contexto preliminar do mesmo texto. Obviamente seres humanos podem fazer isso, e fazem. Mas como Shia afirmou, o mesmo resultado, por vezes, atĂ© mais aproveitĂĄvel, Ă© alcançado pela AI em aproximadamente 45 minutos de scans e computação dos dados da tabuleta.
Os autores desenvolvedores desse sistema irĂŁo apresentar formalmente, em novembro, na "ConferĂȘncia sobre MĂ©todos EmpĂricos em Processamento de Linguagem Natural", um artigo cientifico contendo detalhes e informaçÔes a InteligĂȘncia Artificial (IA) utilizada pelo programa.
Mas jĂĄ podemos ficar bastante animados, pois em uma entrevista o Dr.Yuval Noah Harari, um dos historiadores da equipe que desenvolveu o sistema, afirma que "os scripts de 10.000 tabuletas cuneiformes datando de 2500 a.e.c. - 100 e.c., foram inseridos no novo programa de IA. Conhecido como âA MĂĄquina BabilĂŽniaâ, que promete ajudar historiadores, arqueĂłlogos, filĂłlogos e outros diversos profissionais, que assim como eu, trabalham com a decodificação dos mais diversos estilos de cuneiforme.
Bibliografia S. Gordin. - How the secrets of ancient cuneiform texts are being revealed by AIKiup, L. and R.C. Thompson, Editors. - The Sculptures and inscription of Darius the Great on the rock of Bihistun in Persia. A new collation of the Persian, Susian, and Babylonian texts with English translations, etc. British Museum

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