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Paralelos entre o Enuma Elish e o GĂȘnesis.

  • Foto do escritor: Edson Almeida
    Edson Almeida
  • 11 de out. de 2022
  • 20 min de leitura

Na internet, Ă© comum vermos comparaçÔes entre as passagens descritas na BĂ­blia e os mitos e lendas descritos em diversas tabuletas mesopotĂąmicas, sendo as duas mais comparadas, o GĂȘnesis bĂ­blico e o Enuma Elish babilĂŽnico. Neste breve estudo, analisaremos paralelos entre os dois.

Este artigo nĂŁo visa mudar opiniĂ”es religiosas, apenas evidĂȘnciar semelhanças e diferenças entre o mito da criação babilĂŽnica e alguns contos utilizados pelos Hebreus nos livros bĂ­blicos, os quais descrevem a criação do mundo, do homem e outros. Para isso, começaremos resumindo um pouco do que sĂŁo o Enuma Elish e o GĂȘnesis.

O ENUMA ELISH.

O EnĆ«ma EliĆĄ ou (Enuma Elish), 𒂊𒉡𒈠𒂊đ’‡ș em cuneiforme babilĂŽnico (neo-acadiano), significa (quando no alto), tambĂ©m conhecido como "As sete tĂĄbuas da criação". Trata-se do mito da criação babilĂŽnico, descoberto por Austen Henry Layard em 1849, em tabuletas de argila fragmentadas, nas ruĂ­nas da Biblioteca de Assurbanipal em NĂ­nive (Iraque), e publicado por George Smith em 1876.

Existem diversas versÔes do Enuma Elish, incluindo versÔes Hititas e Assírias, a versão da Biblioteca de Assurbanipal é a mais nova, datando de aproximadamente 1100 a.e.c., porém, existem versÔes acadianas e babilÎnicas que datam de aproximadamente 2.000-1800 a.e.c. Para este artigo, utilizaremos a versão babilÎnica, que embora não seja a mais completa, estå mais próxima da origem do mito do que as demais.

Tablets Lv.b234, Lv.b235, Lv.b236, Lv.b237, Lv.b238, Lv.b239, Lv.b240. Museu do Louvre

O Enuma Elish tem cerca de 1000 linhas escritas em cuneiforme neo-acadiano, sobre sete tĂĄbuas de argila, cada uma com um numero entre 115-170 linhas de texto. As tabuletas estĂŁo bastante destruĂ­das, mas de acordo com uma cĂłpia idĂȘntica encontrada em, Sultantepe, antiga Huzirina, podemos vislumbrar os trechos que estĂŁo faltando nessa versĂŁo. Tal cĂłpia foi perdida em um incĂȘndio no Museu Nacional do Iraque, em 1952, mas ainda existem transcriçÔes da mesma.

Este épico é uma das fontes mais importantes para a compreensão da cosmovisão babilÎnica, centrada na supremacia de Marduk (ou Marduque), e na criação da humanidade para o serviço dos deuses. Seu principal propósito original, no entanto, não é uma exposição de teologia ou teogonia, mas a elevação de Marduk, o deus chefe da BabilÎnia, acima de outros deuses da Mesopotùmia, tendo em vista que eles usaram as crenças acadianas, e as adaptaram a sua cultura.

O GĂȘnesis

Do grego, (ΓέΜΔσÎčς,) "origem", "nascimento", "criação", "princĂ­pio", Ă© o primeiro livro tanto da BĂ­blia Hebraica como da BĂ­blia cristĂŁ, antecede o Livro do Êxodo, fazendo parte dos 5 livros do Pentateuco. GĂȘnesis Ă© o nome dado pela Septuaginta ao primeiro destes livros, ao passo que seu tĂ­tulo hebraico Ă© Bereshit (No princĂ­pio).

O Livro traz a visĂŁo da criação do mundo na perspectiva hebraica, atĂ© Ă  fixação deste povo no Egito, atravĂ©s da histĂłria de JosĂ©. Durante muito tempo a BĂ­blia e em particular o GĂȘnesis, foi a mais antiga fonte de relatos escritos sobre o começo do mundo, da vida, e sobre os acontecimentos dos povos do Antigo Oriente MĂ©dio.

A maioria dos estudiosos bíblicos modernos acredita que a Torå chegou à sua forma presente no período pós-exílio (depois de 520 a.e.c.). Tenha em mente que tradiçÔes mais antigas, tanto orais quanto escritas, detalhes geogråficos, demogråficos e as realidades políticas da época, foram levadas em consideração.

GĂȘnesis Cap I

Os cinco livros sĂŁo geralmente descritos na hipĂłtese documental como se baseando em quatro fontes, entendidas como escolas literĂĄrias e nĂŁo indivĂ­duos: a fonte javista e a fonte eloĂ­sta (entendidas como uma Ășnica fonte), a fonte sacerdotal e a fonte deuteronomista. Ainda hĂĄ discussĂ”es sobre a existĂȘncia e origem das fontes nĂŁo-sacerdotais, mas a tese majoritĂĄria Ă© que estas existiram e sĂŁo posteriores ao exĂ­lio.

O Mito

Para entendermos o contexto desta pesquisa, precisamos primeiro entender o que é um mito e quais os tipos de mito, e é o que faremos agora. Os mitos se mostram atemporais, são criados de acordo com a realidade de cada povo e cultura, para assegurar sua identidade e crenças, isto é, os mitos são moldados para satisfazer os anseios de uma sociedade.

Everaldo Rocha em “O que Ă© Mito? ” (2001, p. 7) nos dĂĄ uma visĂŁo esclarecedora a respeito deste assunto. Afirma que que:

“Mito Ă© uma narrativa, uma forma das sociedades espelharem suas contradiçÔes e exprimirem seus paradoxos, dĂșvidas e inquietaçÔes”.

Jå para Gerd Theissen, os mitos são histórias provenientes de um tempo determinante para o mundo, resquícios de uma era antiga e obscura da qual não se tem total entendimento. Para ele, os mitos não podem ser modernos, pois nos dias atuais seria propriamente impossível a criação de mitos, tendo e vista a evolução tecnológica e mental do ser humano atual.

JĂĄ Severino Croatto diz:

“mito Ă© a definição de um acontecimento originĂĄrio de atos dos deuses, cuja finalidade Ă© “dar sentido a uma realidade significativa”.

Bom, para min o mito nĂŁo Ă© uma simples narrativa qualquer, se fosse, perderia sua especificidade e seria comum que todas famĂ­lias tivessem mitos prĂłprios em suas histĂłrias. Ao meu ver o mito seria uma narrativa especial, capaz de ser distinguida das demais narrativas humanas comuns. NĂŁo que este mito seja real e tenha acontecido, mas o contexto em que ele foi criado pode nos identificar mais do que o prĂłprio mito em si.

O que nos importa entender Ă© que, independentemente do significado da palavra mito, Ă© notĂĄvel que os corpos celestes assumem sempre posição de destaque na inspiração mito poĂ©tica antiga. Para algumas culturas o sol tem o papel central, representa o deus criador e a vida, quando que em outras a lua tem maior influĂȘncia devido ao fato de suas fases estarem relacionadas com eventos terrestres, como a marĂ© e etc.

Sendo assim, Ă© Ăłbvio e atĂ© lĂłgico, que a grande maioria dos povos antigos descrevam "deuses que vieram do cĂ©u". Ora, a luz, que dava vida as colheitas, vinha do sol que estĂĄ no cĂ©u, a chuva, que irriga e dĂĄ a vida aos animais e homens, vinha do cĂ©u, a lua, que ilumina e noite estĂĄ no cĂ©u. Enfim, tudo que o homem antigo identificava como importante para a sua vida estava em cima, no cĂ©u, portanto, estranho seria se eles nĂŁo descrevessem deuses vindo dos cĂ©us, vocĂȘ nĂŁo acha?

Mas voltando ao assunto do artigo, chegamos à duas conclusÔes:

  • A primeira que existem pesquisadores que negam o valor do mito, o enxergam como algo simples, apenas inventado por pessoas que nĂŁo tinham conhecimentos.

  • A segunda Ă© que existem pessoas que acreditam na importĂąncia dos mitos, entendendo que ele traz consigo uma mensagem que nĂŁo estĂĄ escrita de forma clara, transparente, mas que pode ser interpretada nĂŁo pelo que estĂĄ escrito, mas pelo contexto conhecido da Ă©poca.

O mito foi e Ă© estudado atĂ© hoje por diversas correntes, e Ă© importantĂ­ssimo que historiadores e arqueĂłlogos entendam seus tipos e diferenças, a fins de gerarem uma visĂŁo menos fantasiosa e mirabolante, como vemos ĂĄ rodo nos canais de entusiastas. Analisaremos agora possĂ­veis influĂȘncias tidas pelos hebreus, na Ă©poca da produção do GĂȘnesis.

A Influencia de Outras Culturas

Como jĂĄ foi dito, o Enuma Elish e o GĂȘnesis compartilham diversas similaridades, tantas que muitos estudiosos afirmam que Ă© a mesma histĂłria que foi adotada e posteriormente modificada em certos pontos pelos Hebreus. Sabemos que os BabilĂŽnios adotaram a cultura e as crenças dos acadianos, que fizeram o mesmo com os SumĂ©rios, e nesse contexto, fica claro aos olhos que os Hebreus fizeram o mesmo com os BabilĂŽnios.

PoderĂ­amos evidenciar esse acontecimento apenas usando a lĂłgica, ao ler o livro de gĂȘnesis, logo no inĂ­cio Ă© contada a histĂłria da AbraĂŁo, que como sabemos, foi o precursor da religiĂŁo cristĂŁ e hĂĄ quem diga atĂ© que da Grega tambĂ©m. O trecho em questĂŁo pode ser encontrado em Gn 12: 31-32, e confirma que AbraĂŁo era natural da cidade de UR dos Caldeus.

É importante entender que existe uma contradição aĂ­, pois neste perĂ­odo indicado no livro bĂ­blico, a cidade de Ur estava sob controle de um povo chamado Ur-kardim, que para alguns pesquisadores sĂŁo os prĂłprios Caldeus, para outros nĂŁo, porĂ©m, isto Ă© assunto para um outro artigo, que postaremos futuramente.

De qualquer jeito, é claro que, seja qual for a época que Abraão tenha saído de UR, sua crença era mesopotùmica, seus mitos eram mesopotùmicos e logicamente, todo ensinamento que poderia ter sido passado por ele, era de origem mesopotùmico.

O ser humano é e sempre foi influenciado pelo meio em que vive, o contato com outros povos e culturas possibilita uma mudança de mentalidade que resulta na maneira de agir. Como sabemos o povo hebreu teve contato com vårios povos e culturas, embora não tenham sido contatos pacíficos, continuam servindo ao termo contato, uma vez que eram aprendidos e incorporados mitos e crenças e håbitos destes demais povos.

Decisivamente marcante foi o contato dos hebreus com os babilĂŽnios e sua cosmovisĂŁo, como jĂĄ foi citado. Durante o perĂ­odo do exĂ­lio, por volta sĂ©culo VI a.e.c., o povo hebreu precisou fazer uma releitura de sua prĂłpria histĂłria a fins de encontrar maneiras de conservar e assegurar sua identidade. Posteriormente, muitas das escritas contidas no antigo testamento foram revistas, algumas modificadas, outras retiradas, outras adicionadas, mas nos manteremos falando apenas do inicio GĂȘnesis, por enquanto.

Nesse contexto, podemos concluir que cada cultura e cada povo tem seu modo de conceber e contar as histĂłrias que lhes foram vividas ou passadas, mas tambĂ©m que sĂŁo influenciados por histĂłrias, mitos e lendas de outros povos. Veremos agora como os BabilĂŽnios e os Hebreus relataram a obra da criação, a seguir faremos a comparação de alguns trechos contidos no Enuma Elish e no GĂȘnesis.

Enuma Elish

O Enuma Elish inteiro possui mais de 1000 linhas, sendo assim, resumiremos a história das tåbuas, mantendo os pontos mais relevantes e posteriormente especificando os trechos na hora da comparação.

Os trĂȘs nomes mais importantes que constam no Enuma Elish sĂŁo: Apsu - masculino, ĂĄgua doce, progenitor, Tiamat - feminino, ĂĄgua salgada, caos, abismo, representada por um monstro marinho e Marduk, filho de Enki. Alguns pesquisadores consideram que estĂĄ Ă© a Trindade BabilĂŽnica.

Apsu, Tiamat e Marduk. Relevo AssĂ­rio do PalĂĄcio de NĂ­niveh

Quando no alto os cĂ©us nĂŁo tinham nome, e em baixo a terra nĂŁo fora nomeada, havia senĂŁo o primordial Apsu, ĂĄguas doces, progenitor, e a tumultuosa Tiamat, ĂĄguas salgadas, o Ăștero de tudo. E entĂŁo a partir de Apsu e Tiamat, nas ĂĄguas dele e dela, foram criados os deuses, e para dentro das ĂĄguas precipitou-se a terra.

A discórdia rompeu entre os deuses, apesar de serem irmãos, eles começaram a festejar e também brigar, fazendo tudo tremer, como numa dança frenética, de tal forma que Apsu não pode silenciar o clamor dos jovens deuses, fazer cessar tal mal comportamento. Então estes novos deuses começaram a incomodar Apsu e Tiamat, pois são demasiadamente tumultuosos e Apsu decide matå-los.

Tiamat, ainda estava quieta quando Apsu, chamou por seu conselheiro Mummu: “Caro conselheiro, vem comigo a Tiamat”. Eles assim o fizeram e em frente a Tiamat, se sentaram falando sobre os jovens deuses, seus filhos primogĂȘnitos. Disse Apsu: “Os modos deles me revoltam, dia e noite, sem cessar, sofremos. Minha vontade Ă© destruĂ­-los, todos eles, para que possamos ter paz e dormir novamente”.

Então Mummu aconselhou Apsu: “Pai, destrua-os todos numa rebelião de monta e teremos paz durante o dia e à noite, todos poderemos dormir”. Quando Apsu ouviu que os dados haviam sido lançados contra seus filhos e filhas, sua face inflamou-se com o prazer do mal; mas a Mummu ele abraçou, pendurou-se ao seu pescoço, colocou-o nos seus joelhos e o beijou.

O deus Ea, também conhecido por Enki, descobre o plano, antecipa-se e mata Apsu. Posteriormente, Damkina, esposa de Enki, då à luz Marduk, entretanto, Tiamat, enraivecida pelo assassinato de seu marido, jura vingança, criando doze monstros para executar sua vingança.

Tiamat casa com o deus Kingu, um desses monstros, o mais forte de todos e coloca-o à frente de seu novo exército. As forças que Tiamat reuniu preparam-se para a vingança, entretanto, Enki descobre o plano e confronta-a, mas é derrotado. Anu, pai de Enki, um dos deuses mais fortes até então, desafia-a, mas tem o mesmo destino. Os deuses começam a temer que ninguém seria capaz de deter Tiamat.

Foi EntĂŁo que Marduk, que estava quieto atĂ© entĂŁo, convence os outros Deuses de que pode vencer Tiamat, com a condição de que se o fizer, em troca deverĂĄ ser nomeado o Deus dos deuses, a deidade mais forte e mais respeitada dentre todas. Os deuses aceitam a proposta de Marduk, que reĂșne as armas, magias dos quatro ventos e ainda os sete ventos da destruição, e segue para o confronto.

A batalha se inicia e perdura por horas, até que Marduk prende Tiamat numa rede e conjura os poderes dos ventos, que entram na boca de Tiamat a mantendo aberta e incapacitando-a de conjurar magias. Após isto, Marduk mata-a com uma seta (lança ou flecha) que entra pela boca de Tiamat e a atinge no coração. Marduk divide o corpo dela, usando metade inferior para criar a terra, e a metade superior para criar o céu.

Representação babilÎnica, Marduk mata Tiamat. Museu Britùnico de Londres.

Marduk cria residĂȘncias para os outros deuses e Ă  medida que estes vĂŁo ocupando o seu lugar, vĂŁo sendo criados os dias, meses e estaçÔes do ano, o que retrata a criação dos astros celestes, bem como a percepção de contagem temporal.

Da saliva de Tiamat, Marduk cria a chuva, e a cidade da Babilónia é criada sob a proteção dele. Agora os deuses reclamavam para o novo deus supremo que não tinham ninguém para os adorar ou trabalhar por eles, então Marduk decide criar os seres humanos. Mas precisa de sangue divino para criar a vida, então ele decide que um dos deuses deverå morrer, o culpado de lançar o mal sobre os outros.

Marduk consulta os outros deuses e descobre que quem incitou a revolta de Tiamat foi o seu marido, Kingu, entĂŁo Marduk o mata, dĂĄ seu sangue para Enki, que usa o sangue e argila para criar o Homem, de forma a que este sirva os deuses e os adore.

EstĂĄ Ă© a histĂłria principal passada pelo poema BabilĂŽnico, nĂŁo achamos necessĂĄrio resumir a histĂłria BĂ­blica, pois subentendemos que vocĂȘ conheça o texto de GĂȘnesis, ou que no mĂ­nimo tenha uma BĂ­blia em casa, ou use uma versĂŁo online para acompanhar os trechos que citados.

Analise e Comparação

No capítulo anterior citamos resumidamente a história principal contida no Enuma Elish, agora, selecionaremos algumas partes do poema original para fazer as comparaçÔes almejadas. O texto do poema Enuma Elish que usaremos para fazer a comparação foi traduzido a partir do texto Frederico Lara Peinado (2008), jå o texto Bíblico foi extraído da Bíblia de Jerusalém (2002), que é tida como a mais fiel ao texto original (hå controvérsias).

O texto babilĂŽnico Ă© composto por sete tĂĄbuas, o que jĂĄ faz menção aos 7 dias da criação do mundo, segundo o GĂȘnesis. Nota-se que atĂ© isso Ă© semelhante, no GĂȘnesis o mundo Ă© criado em 7 dias, provavelmente por que a histĂłria que originou o texto continha 7 tĂĄbuas.

GĂȘnesis I

“No princĂ­pio, Deus criou o cĂ©u e a terra, Ora, a terra estava vazia e vaga, o caos cobria o abismo e um sopro de Deus agitava a superfĂ­cie das ĂĄguas. Deus Disse: “Haja Luz” e houve luz. Deus viu que a luz era boa, e separou a luz e as trevas. Deus Chamou a Luz de “Dia” e as trevas de “noite”. Houve uma tarde e uma manhĂŁ: este foi o primeiro dia. (BĂ­blia de JerusalĂ©m, 2002, Gn 1,1-5).

ENUMA ELISH (Tabua I)

“Quando no alto o cĂ©u ainda nĂŁo havia sido nomeado, e abaixo, a terra firme nĂŁo havia sido mencionada com um nome, sĂł Apsu, seu progenitor, e a mĂŁe Tiamat, a geradora de todos, mesclavam suas ĂĄguas: ainda nĂŁo se haviam aglomerado os juncos, nem os canaviais tinham sido vistos. Quando os celestes ainda nĂŁo haviam aparecido, nem tinham um nome, nem fixado nenhum destino, os deuses foram criados”.

Enquanto o poema babilĂŽnico conta a criação do mundo a partir de dois princĂ­pios primordiais (Apsu e Tiamat), O GĂȘnesis retrata o mesmo evento, mas advindo de um sĂł Deus. Percebemos que os dois textos remetem a um tempo longĂ­nquo, onde nada havia sido ainda criado, e percebe-se tambĂ©m que as duas narrativas poĂ©ticas tĂȘm a mesma estrutura ao iniciarem sua construção literĂĄria, enfatizando o vasto vazio antes da criação.

Um ponto que chama atenção é a relação entre a ågua e o caos, no poema babilÎnico pode-se notar a descrição do universo primitivo como uma confusão de åguas personificadas pelo casal divino Apsu e Tiamat. Apsu era o princípio cósmico masculino, uma espécie de abismo primordial, formado pelas åguas doces, como é descrito mais à frente na tabua I. Jå Tiamat era o princípio cósmico feminino, personificada pelas åguas salgadas.

No poema babilĂŽnico as ĂĄguas doces e salgadas encontram-se intimamente confundidas e misturadas, o que remete ao caos citado no texto de GĂȘnesis, como se nada tivesse forma ou objetivo concreto, como se tudo fosse apenas um grande oceano de ĂĄguas doces e salgadas, um caos dominante. Quando Apsu e Tiamat se unem com o objetivo de criar o mundo, eles separam suas ĂĄguas, ordenando-as diferentemente, do mesmo jeito que Deus separa a luz e as trevas em GĂȘnesis.

Agora as ĂĄguas doces e salgadas estavam separadas, assim como a luz separada das trevas, confirmando que o caos chegara ao fim, seguido de uma nova era de ordem e Luz. Na versĂŁo bĂ­blica, a luz Ă© a primeira obra de Deus realizada pela palavra: “E Deus disse: Haja luz. E houve luz”. Neste contexto, percebemos que a luz independe de fonte, independe do Sol, de algo que a produza, a voz divina chama e Ă© obedecida, a palavra Ă© direta e eficaz.

Nesse sentido, podemos crer que esta luz criada no primeiro dia remete Ă  ordem que vinha iluminar a desordem do caos. Nota-se que as trevas nĂŁo foram chamadas Ă  existĂȘncia, isto por que a noite Ă© um resĂ­duo da escuridĂŁo do caos, este, que jĂĄ existia desde o princĂ­pio. (Para a cosmovisĂŁo dos povos da Ă©poca, obviamente.)

Ainda falando da criação da luz, o termo “E houve luz”, faz da luz uma “criatura” de Deus, isto para nĂŁo relacionar a origem da luz ao sol, que foi criado apenas no quarto dia da criação segundo GĂȘnesis. Isso acontece por que os hebreus nĂŁo queriam que o sol fosse venerado como um deus, como acontecia em diversas culturas antigas. Eles nĂŁo queriam isso justamente para nĂŁo serem comparados a outras culturas que o faziam.

A tĂĄbua I, referindo-se Ă  questĂŁo do nome, na versĂŁo babilĂŽnica, diz: “Quando os celestes ainda nĂŁo haviam aparecido, nem tinham um nome”. Analisando isso podemos concluir que ter um nome Ă© o mesmo que a existir. NĂŁo o ter, implica em nĂŁo existir, pois as coisas sĂł sĂŁo reconhecidas apĂłs serem nomeadas, a partir disso entendemos a importĂąncia do nome, para as culturas daquela Ă©poca.

Existem tambĂ©m diferenças. Apsu e Tiamat, necessitam um do outro para dar criação as coisas, enquanto no texto bĂ­blico, Deus apenas fala e as coisas acontecem. SĂł ele existia e somente ele era necessĂĄrio para criar tudo. “E deus disse: Haja Luz. E houve Luz”. Nota-se a onipotĂȘncia do deus hebreu, coisa que nĂŁo acontece no poema babilĂŽnico.

Outro ponto que demonstra essa diferença proposital nos poemas, Ă© que o Enuma Elish retrata uma batalha entre a ordem e o caos desde o princĂ­pio. Deuses se revoltando, lutando uns contra os outros, matando uns aos outros, enquanto no GĂȘnesis nĂŁo hĂĄ lutas entre deuses. NĂŁo hĂĄ vingança e assassinatos, somente um Deus onipotente que nĂŁo precisa de nada para criar tudo, demonstrando supremacia.

Firmamento

GĂȘnesis 1

“Deus disse: Haja um firmamento no meio das ĂĄguas e que ele separe ĂĄguas das ĂĄguas. E assim se fez. Deus fez o firmamento que separou as ĂĄguas sob o firmamento das ĂĄguas que estĂŁo acima dele, e Deus chamou o firmamento de cĂ©u. Houve uma tarde e uma manhĂŁ, era o segundo dia. Deus disse: que as ĂĄguas acima se reĂșnam num sĂł lugar, e que apareça o continente. E assim se fez. Deus chamou o continente de terra e as ĂĄguas ao seu redor de mares, e Deus viu que isso era bom” (BĂ­blia de JerusalĂ©m, 2002, Gn, 1,6-10)

ENUMA ELISH (TĂĄbua IV)

“Com a cabeça repousada, Marduk contemplava o cadĂĄver de Tiamat. Dividiu logo a carne monstruosa para criar maravilhas. Dividiu em duas partes, como se fosse um peixe destinado a secagem, e usou a metade de cima para criar o cĂ©u em forma de abĂłbada. Com a metade inferior, ele criou a terra, a situou no meio das ĂĄguas que chamou de mares, e colocou guardiĂ”es, cuidando para que estas nĂŁo saĂ­ssem das ĂĄguas” (TĂĄbua 4, linhas 128-135)

O tema firmamento estĂĄ presente nas duas obras, como jĂĄ citamos. Na versĂŁo babilĂŽnica, Marduk mata Tiamat e dos restos mortais de seu corpo e argila, forma o universo. Na versĂŁo bĂ­blica, Deus mais uma vez, por meio de sua palavra criadora, faz com que surja um firmamento separando as ĂĄguas que estĂŁo acima, das ĂĄguas que estĂŁo abaixo.

Isso acontece, porque para os babilÎnios, acadianos e sumérios, a terra era como um disco, flutuando no meio de um oceano primordial, a parte de cima era um domo e impedia que as åguas de cima caíssem sobre a terra. Logo abaixo da terra estaria uma espécie de submundo que era chamado de kur.ur, que pode ser interpretado como "cidade da montanha" ou "cidade subterrùnea.

O ponto aqui nĂŁo Ă© chamar atenção para “fazer” ou “criar”, mas sim despertar conscientemente a percepção de um ato criador fĂĄcil, poderoso e sem esforço, diferentemente do mito babilĂŽnico. Mais uma vez no texto bĂ­blico nota-se a que nĂŁo hĂĄ batalhas entre deuses, nĂŁo hĂĄ competiçÔes entre poderes, apenas um deus criador usando seu poder incontestĂĄvel para criar.

A BĂ­blia de JerusalĂ©m (2002, p. 33), em sua nota de rodapĂ© (letra f), nos esclarece que a “abĂłboda” aparente do cĂ©u era para os antigos semitas uma cĂșpula sĂłlida, mas tambĂ©m um tipo de “tenda” armada, o que remete ao trecho do poema babilĂŽnico em que Marduk divide o corpo de Tiamat em cria o cĂ©u e a terra com cada parte. Nesse sentido identificamos que a “cĂșpula sĂłlida” foi uma maneira de descrever a essa divisĂŁo, onde o lado de dentro da cĂșpula se mostrava independente do lado de fora.

Os Astros

GĂȘnesis 1

"Deus disse: Que Haja luzeiros no firmamento do céu para separar o dia e a noite: que eles sirvam de sinais tanto para as festas quando para os dias e os anos, que iluminem a terra, e assim se fez. Deus fez dois luzeiros maiores, o grande como poder do dia e o pequeno como poder da noite, e as estrelas." (Bíblia de Jerusalém, Gn 1, 14-19)

Enuma Elish (Tabua IV)

"Marduk fez a sua palavra, segundo a sua ordem, a constelação desapareceu e a uma nova ordem, aparece, a Constelação ficou restaurada. Shamash e Sin agora se pĂ”e em suas residĂȘncias. Quando os deuses, seus pais, viram a eficĂĄcia de sua palavra o saudaram alegremente: “SĂł Marduk Ă© Rei”. (TĂĄbua IV, linhas 25-28)

Mais uma vez nos deparamos com a questĂŁo da palavra criadora, mas desta vez, no poema babilĂŽnico, Marduk cria os astros tambĂ©m pela força de sua palavra. Shamash Ă© o deus sol para os babilĂŽnios, e Sin Ă© a deusa lua. Estes se pondo em suas residĂȘncias, retratam o começo do texto bĂ­blico, onde os luzeiros sĂŁo postos em seus devidos lugares no firmamento.

A similaridade no poema bĂ­blico salta aos olhos, pois notamos que o grande luzeiro do dia Ă© o sol e o pequeno luzeiro da noite Ă© a lua. Notamos que a constelação tambĂ©m Ă© citada no poema bĂ­blico, porĂ©m, como "estrelas“. Ora, sabemos que constelação Ă© o nome dado para uma formação constituĂ­da de estrelas, mais um ponto congruente.

Uma divergĂȘncia, Ă© que nas culturas do Oriente MĂ©dio, especialmente, dos povos vizinhos a Israel, os astros tinham grande importĂąncia, eram considerados deuses. JĂĄ na redação bĂ­blica, eles nĂŁo passam de criaturas de Deus, e nĂŁo recebem se quer um nome sendo apenas chamados de grande luzeiro e pequeno luzeiro. Nota-se que o autor bĂ­blico reduziu a função desses astros a “lĂąmpadas” que iluminam a terra.

As estrelas, cujos movimentos eram acompanhados pelos antigos astrĂłlogos para orientação aparecem no relato de GĂȘnesis quase que como uma ideia secundĂĄria, dando a entender que estas ainda eram menos do que os astros, que no poema babilĂŽnico eram deuses, mas no bĂ­blico apenas completam a criação primĂĄria.

Perceba que querendo enfatizar a questão do monoteísmo, que é a crença em um só Deus, a escola sacerdotal desmitificou profundamente as forças siderais, às quais nega honras divinas, bem como faz com a natureza e seus seres e forças. Desta forma toda a natureza é apresentada como criatura de Deus, libertando o homem de uma submissão diante desta, mas o colocando em submissão a outro tipo de crença.

A Criação do Homem

Enuma Elish (tĂĄbua VI)

Quando Marduk ouviu as palavras dos deuses, seu coração o empurrou a criar maravilhas, e ele comunicou a EA(Enki): “vou juntar sangue e argila e formar ossos, farei um protótipo que se chamará homem, vou criar este homem para que lhe sejam impostos os serviços dos deuses e que eles estejam descansados”. (Tábua VI, linhas 1-8)

Enuma Elish (tĂĄbua VI)

Ataram-no (kingu) e o mantiveram preso em frente a EA. Inflingiram-lhe seu castigo, cortaram-lhe o sangue. E com seu sangue e argila, EA formou a humanidade e impÎs sobre ela o serviço dos deuses, libertando-os deste. (Tåbua VI, linhas 31-34)

GĂȘnesis 1

Deus disse: “Façamos o homem Ă  nossa imagem, como nossa semelhança, e que eles dominem sobre os peixes do mar, as aves do cĂ©u e os animais domĂ©sticos, todas as feras e todos os rĂ©pteis que rasteja sobre a terra”. Deus os abençoou e lhes disse: “sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a; Deus disse: “eu vos dou todas as ervas que dĂŁo semente, que estĂŁo sobre toda a superfĂ­cie da terra e todas as ĂĄrvores que dĂŁo frutos que dĂŁo sementes: isso serĂĄ vosso alimento” (BĂ­blia de JerusalĂ©m, 2002, GN 1, 26-29)

Logo de cara percebemos que os dois textos tratam de uma reuniĂŁo entre os deuses para decidir como seria essa criação (homem). No texto babilĂŽnico nota-se que Marduk ouviu as palavras dos deuses e resolveu criar algo maravilhoso apĂłs isto, sendo que na versĂŁo bĂ­blica Ă© dito “façamos o homem Ă  nossa imagem e semelhança” o que tambĂ©m retrata uma espĂ©cie de reuniĂŁo, ou conselho dos deuses decidindo como seria feito o homem.

Como poderia haver uma reuniĂŁo dos deuses, se na BĂ­blia sĂł existe um Deus? Bom, o que se percebe Ă© que existiam sim outros deuses nas crenças hebraicas, mas foram desmitificados assim como a natureza e os astros, como jĂĄ foi dito. Existem vĂĄrios pontos na bĂ­blia que demonstram isso, como: "Quem entre os deuses Ă© semelhante a ti, Senhor? Quem Ă© semelhante a ti? Majestoso em santidade, criador de maravilhas” Êx 15:11-12.

Ou em 1 Reis 11:33. “Isso porque SalomĂŁo me abandonou para Adorar Astarte (Astaroth), deusa dos SidĂŽnios, Camos, deus de Moab, e Melcom, deus dos amonitas”. SĂł esses dois trechos jĂĄ deixam clarĂ­ssimo que existiam outros deuses na antiguidade hebraica, e vocĂȘ encontra mais trechos afirmando isso na bĂ­blia, estes nĂŁo sĂŁo os Ășnicos.

Mais um ponto que Ă© pertinente Ă  teoria Ă© que na BĂ­blia hebraica "original", Ă© usada a palavra Elohim (do hebraico ŚÖ±ŚœŚ•ÖčŚ”ÖŽŚ™Ś) para se dirigir a Deus. Na lĂ­ngua hebraica, o sufixo “im” do final da palavra Elohim, corresponde ao nosso “s” que indica a pluralidade da palavra, por isso, Ă© verdade que o termo Elohim Ă© forma plural de El (ڐڜ), que ao pĂ© da letra significa “Deus” ou “majestade” em hebraico. Assim entende-se que na BĂ­blia original, quando se fala de Deus, estĂŁo se referindo ao plural de Deus, ou seja, deuses.

Outro ponto interessante Ă© que no texto babilĂŽnico, Enki usa o sangue de um ser divino e argila para criar o homem, jĂĄ no texto bĂ­blico, Ă© dito que ele serĂĄ feito Ă  imagem e semelhança dos deuses. Comparando com a lĂłgica chegamos Ă  conclusĂŁo que “à nossa imagem e semelhança” nada mais Ă© do que uma alusĂŁo ao texto babilĂŽnico, no qual prĂłprio sangue de um deus Ă© utilizado para criar o homem, caso contrĂĄrio, por que nĂŁo usar o sangue de qualquer outro animal?

Ao falar de Genesis 2, percebemos um ponto bastante interessante, se vocĂȘ pegar o capitulo 2 de GĂȘnesis, a partir do versĂ­culo 4, cujo tĂ­tulo Ă© “ A formação do jardim do Éden”, vocĂȘ vai perceber que as coisas escritas ali dispensam completamente o que estĂĄ escrito no capitulo 1, ou seja, se nĂŁo houvesse o primeiro capĂ­tulo, ainda assim haveria uma teoria completa para explicar a criação do universo.

Isso acontece por conta das “correntes” ou fontes como citamos no inĂ­cio do artigo, pois os autores dos textos bĂ­blicos nĂŁo pertenciam Ă  uma sĂł escola literĂĄria, mas a 4 diferentes, o que resultou em algumas controvĂ©rsias nos textos. Por Ășltimo, reforço a tese citando a primeira nota de rodapĂ© do livro de GĂȘnesis: (Gn 1, 1-2,4a).

“A narrativa da criação nĂŁo Ă© um tratado cientifico, mas um poema que contempla o universo como criatura de Deus. Foi escrito pelos sacerdotes no tempo do exĂ­lio na BabilĂŽnia (586-538) a.C”.

Creio que a nota fala por si só, não precisando de explicação para comprovar o afirmado.

ConclusĂŁo

A religião judaica passou por uma transformação que veio do politeísmo acadio-babilÎnico, passou pela monolatria, que é saber que existem vårios deuses, mas preferir adorar apenas um, e só aí se tornou o monoteísmo que conhecemos hoje.

Isso era normal, era o que acontecia na época. Os hebreus fizeram com os babilÎnios o que os babilÎnios fizeram com os acadiano, que fizeram com os sumérios, que fizeram com os ubaidianos e por aí vai. Aconteceu com diversos outros povos da antiguidade, como Grécia e Roma, onde os romanos adotam costumes, crenças e até a língua grega, dando luz à cultura Greco-Romana.

A lógica da religião antiga idealizava que era comum para um povo que vencia, ou no caso, dos hebreus “se libertava”, acreditar que seu deus era mais poderoso do que o deus do povo inimigo em questão. A ideia parte do pressuposto que se os hebreus tinham seu Deus, e orando para ele conseguiram a libertação, esse deus logicamente seria mais forte do que os deuses babilînicos, caso contrário, a prece atendida seria a deles e não dos hebreus.

A mesma coisa que aconteceu com os babilĂŽnios, ao adicionar Marduk e algumas peculiaridades nos mitos acadianos. É obvio que existem outras anĂĄlises para este assunto, tanto antigas quanto modernas, pois como foi dito, um mito antigo possui simbolismos e figuraçÔes, o que abre espaço para diversas interpretaçÔes.

Sim, com toda certeza os hebreus incorporam os mitos mesopotùmicos em suas crenças, porém, historicamente isso não é considerado plågio, mas sim "reciclagem mitológica", onde se utiliza um mito antigo, mas adapta-se seu contexto å visão do povo que o recicla. De qualquer jeito, o importante é conhecer tais mitos e, principalmente, saber a diferença entre mitologia e história, entre o que se diz que aconteceu e o que pode ser provado ter acontecido, caso contrårio, seremos sempre como crianças deslumbradas, acreditando nas histórias de ninar que nossos pais (antepassados) contavam.

Bibliografia e ReferĂȘncias

Pesquisa Autoral por Edson Almeida. L.W.King - Enuma Elish: The Seven Tablets of the History of Creation

L.W.King - Enuma Elish (2Âș Volume): The Seven Tablets of Creation; The Babylonian and Assyrian Legends Concerning the Creation of the World and of Mankind

Mohammad R. Zok - Scientific Secrets in the Epic of Creation Enuma Elish

LAMBERT, W. G. - Babylonian Creation Myths

Shemuel B. G - THE ENUMA ELISH, The Babylonian Creation Myth



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